Fronteira é a temática que tem motivado e articulado o programa de educação eu sou paisagem, desde 2016… Como é que as fronteiras (políticas, físicas e geográficas…) afetam os seres humanos e não humanos que constrõem as paisagens? Que tensões se encontram na pesquisa e nos modos de intervir em relação às fronteiras de classe, género e de raça?
Estas parecem-nos questões muito importantes para um programa de educação que se dedica ao território e à paisagem, nos anos 20 do século em que vivemos.
O estrangeiro é primeiramente estrangeiro à língua do direito na qual o dever de hospitalidade está formulado, o direito de asilo, os seus limites,
as suas normas, a sua polícia, etc. ele tem de pedir a hospitalidade numa língua que, por definição, não é a sua, a língua que o dono da casa lhe
impõe, o hóspede, o rei, o senhor, o poder, a nação, o estado, o pai, etc. este impõe-lhe a tradução na sua própria língua, e é a primeira violência.
A questão da hospitalidade começa aí: deveremos nós pedir ao estrangeiro para nos compreender, para falar a nossa língua...
Jacques Derrida, Da Hospitalidade. Viseu: Palimage Editores, 2003, 34
Este mapa mundo é uma projeção de Gall-Peters. Este modo de representar o mundo foi criada por James Gall em 1885 e só foi retomada,
nos anos 70 do século XX por Arno Peters. As representações do mundo normalmente usadas são baseadas na projeção de 1569 do cartógrafo G. Mercator. A projeção
de Mercator, pela qual quase todos aprendemos a identificar os continentes, os oceanos, os países, respeita a forma dos continentes, mas não os tamanhos. Assim
quer a Europa, quer a América do Norte são maiores do que realmente são e a África parece menor do que realmente é, quando na realidade física tem o triplo da
extensão da América do Norte (e é quatorze vezes maior que a Gronelândia), ou por exemplo, o Alasca ocupa mais espaço que o México, embora seja menor.
O mapa é um convite que aqui lhe deixamos para interrogar as imagens e representações dos territórios que temos como “únicas” ou “verdadeiras.”
Neste território as marcas das divisões territoriais e da presença (histórica e atual) do Estrangeiro são muito evidentes na paisagem.A marca fortíssima da
vinha e da oliveira, tão caracterizadoras das culturas do Mediterrâneo, implicam uma atenção às convulsões humanas que nele assistimos nos últimos anos.
FICÇÃO implica MATÉRIA. Durante todo ano o sinal => implica serve para interpelar as paisagens e as pessoas. Uma implicação no que se faz.Como inventar matérias para mais ficções. E com a ficção …que matérias se criam?
Uma paisagem é sempre uma construção enamorada e tensa entre matéria e ficção, entre solo, vento, expectativa, desejo, entre experiência e gesto repetido.
O sinal matemático de equivalência <=> instala a procura do que é assimétrico, o que o fica fora da equivalência, o que sobra.
Que relações existem entre liberdade e paisagem? Em que lugares nos sentimos livres? E quais são os que nos enclausuram ou nos tiram a liberdade? Que características têm estes diferentes lugares? Onde é que gostamos de correr, de caminhar,
de sentar, de parar, de ver e olhar, de contemplar?
No ano de 2014, o 25 de abril comemora os seus quarenta anos e procuramos a liberdade. Procuramos as liberdades. E procuramo-las também nas paisagens.
O que não se vê logo. O que não se ouve à primeira. O que não se cheira de imediato. O que não se saboreia com a pressa. O que não se toca porque se estranha. O segredo e o(s) poder(es) as suas marcas evidentes de separação nestas e noutras paisagens.
A criação de biografias é aqui entendida como um modo de criar e refletir sobre a realidade de hoje pensando e agindo com as vidas entrelaçados das pessoas nas paisagens. O ato de contar a vida de uma pessoa, de um objeto, de uma planta ou animal permite perspetivar singularidades e necessariamente interrogar o seu tempo e o tempo histórico. Da fauna à flora, às tipologias das paisagens, a tensão entre novo e antigo, entre memória e futuro. E que modos para grafar BIOS sem ser através da escrita?
‘E de tudo os espelhos são a invenção mais impura’.
Herberto Hélder
O 2x – espelhos confronta-se entre estas duas afirmações. Interroga modos de ver e modos de representar corpos e lugares, através da imagem especular. O centro é a pessoa, os modos como esta se vê, se relaciona consigo, com os outros e com os lugares em que vive.
‘O Douro tornou-se uma terra com excesso de identidade que oscila entre o genérico e o postal’.
Álvaro Domingues
Criar uma capsula, um relicário de lembranças ou imaginários – as construções da identidade do “Douro” – rio, terra, marca – possibilidades para desmontar, rever, re-olhar o que se identifica, o que se repete, o que se cristalizou no tempo, o que fugiu ou ficou rio abaixo ou rio acima.
Num futuro próximo, dentro de 10 a 15 anos, as crianças e jovens que contactaram com as atividades deste projeto estarão na vida ativa, terão os direitos e deveres de uma cidadania portuguesa e europeia. Como serão os espaços que os envolvem? E sobretudo como olharão e atuarão sobre esses mesmos espaços? Como será lido o território, o mundo e o universo Como se configurará a vida nesta região do Douro ou noutras regiões onde viverão estas crianças e jovens? Estas são algumas das questões que percorrem os espaços próximos e distantes deste projeto em conjunto.
Os dois anos do projeto envolvem a presença da agua neste território cujo nome é dado por um rio.
Como se vive e se pode vir a viver, como se imagina e o que se quer projetar sobre um elemento comum entre humanos e mais que humanos, entre pessoa e paisagem?
Experimentar e pensar a paisagem tem uma relação incondicional com o cinema.
Procura-se, aqui, implicações da ficção cinematográfica na construção dos lugares.
As residenciais são lugares de passagem num território em que a circulação de pessoas, bens – dos trabalhadores da vinha aos turistas nacionais ou estrangeiros – é uma
das características da vida nesta região. Este programa arranca na Horta da aldeia da Veiga, em Santa Marta de Penaguião.
O registo possível das pesquisas e ações realizadas são o motor desta linha de
trabalho essencial deste programa: editar para criar ação e reflexão. O Serviço
Educativo edita documentos sínteses para cada um dos projetos (e outras
atividades como seminários e palestras) que realiza com o intuito de registar,
refletir, avaliar e disseminar as propostas de trabalho a outros contextos em
paralelo com a pesquisa sobre uma arqueologia do realizado.